Acordou como se estivesse sendo comido por dentro, por ratos, eles ali, dentro dele, comendo todos os seus órgãos internos, dor, dor, um homem era só isso: ossos, sangue e principalmente dor. Mas o que ele poderia fazer?
Tentou levantar- se, mas não conseguiu. Estava impotente. Vomitou. Antes, conseguiu virar a cabeça para o lado. Algo esverdeado sujou o chão, mais avermelhado que esverdeado exatamente, sangue, percebeu logo. Realmente não estava bem.
Não era a morte que o assustava, o pior eram as coisas que iriam se passar antes dela, muita dor? Sofrimento ?
― Porque a morte não vem logo, J.C? QUE MERDA!
Não poderia morrer ali, daquela maneira. Ainda tinha muito para escrever, para beber, fumar, foder. DAQUELE JEITO NÃO, era tudo que pedia.
― Quero uma morte tranquila, merda!
Novamente se esforçou para levantar, dessa vez conseguiu sentar- se. Vomitou novamente, dessa vez, viu apenas vermelhidão. Preocupou- se mais ainda.
Se tivesse um fósforo a alcance, com toda certeza colocaria fogo naquilo tudo, em si mesmo, seria mais tranquilo, mas nem isso conseguiu achar do lugar que estava.
Todos aqueles poemas que escrevera, toda uma vida dedicada à arte. Onde estavam aqueles filhos- duma- mãe que sempre apareciam nas horas mais inoportunas para beber da sua cerveja? Iriam- no deixar morrer ali sozinho? E todas aquelas putas que comera? Onde estavam? Até a companhia daqueles malditos serviriam. Ele só não queria morrer ali sozinho!
De que adiantou todas as letras, bebidas, cigarros, drogas, fodas, se ali na hora final estava sozinho? Foi abandonado por todas as suas companhias da vida inteira. Nenhuma...
―MALDITOS SEJAM!
Fez- se de durão a vida inteira, e agora estava ali, chorando, mole, mole, mole. Era o que ele realmente era. Mole!
Vladimir odiava a realidade. Gostava mesmo era de escrever, ou beber, que era quando saia da realidade. Mas possuía consciência que só na realidade poderia conseguir uma boa foda, cigarros e comprar o álcool.
Tinha consciência que a liberdade humana consistia em ter ciência do absurdo da vida e apenas!
E como aquela era absurda, toda a sua vida tinha sido absurda...
Passou a vida sendo solitário, o seu final iria ser igual, mas queria ter se preparado mais um pouco. E a morte poderia chegar toda gostosa, mostrando as pernas, num vestido preto e dizer:
―Vamos, gatão?
Ele iria! Jurou para si mesmo que iria sem problemas algum.
― Mas daquele jeito, J.C? Porque ?
Olhou para o lado, viu umas garrafas vazias. Nada para beber e se o fizesse provavelmente não daria muito certo. Nenhum cigarro. A única visão eram livros, livros, livros, deles de outros, passara a vida se dedicando a isso. E agora? De que aquelas merdas adiantavam?
Como uma mulher com quem poderia ter passado a vida toda lhe serviria naquele momento, ou filhos barulhentos e chorões. Depois pensou melhor, qualquer companhia serviria naquele momento, e se estes existissem teriam arruinado TODA a sua vida, OU NÃO!
Pensou em ligar para alguém, mas a morte não tinha tido legal nem a respeito do horário, eram 3 horas da manhã, que merda, J.C, se ligasse não o iriam atender, ou iriam desligar na sua cara. Então desistiu.
Olhou novamente para todas as garrafas vazias, os filtros de cigarro jogados no chão, a imundície em que vivia. Olhou para os livros, eles continuavam ali, sólidos, inabaláveis, ele queria estar assim também. Mas não o pôde...
E morreu ali, sozinho, os ratos comendo sua alma, MAS OS RATOS FAZIAM PARTE DE SUA ALMA. Morreu ali, sozinho e sujo...
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