“Tudo o que era mau atraia-me: gostava de beber, era preguiçoso, não defendia nenhum deus, nenhuma opinião política, nenhuma idéia, nenhum ideal. Eu estava instalado no vazio, na inexistência, e aceitava isso. Tudo isso fazia de mim uma pessoa desinteressante. Mas eu não queria ser interessante, era muito difícil.”
A primeira vez que li esse trecho do tal Bukowski tive a impressão de não ter sido escrito por ele e sim pela minha própria alma, meu eu, ou qualquer coisa do tipo.
Desde que me lembro com alguma consciência achei que as pessoas me deprimiam (na grande maioria das vezes), religião era besteira, política era uma merda, tudo me cansava, nunca seria muita coisa na vida e o álcool era a minha única salvação.
Contentava-me com pouco, sempre foi assim.
− Vai ser um nada!
Gritava meu pai condoído.
Diziam que eu era de aparência até interessante, alto, robusto, cabelos negros encaracolados, olhos azuis. Às vezes passava dias bebendo, só me preocupando com isto. Não comia, não banhava, acabava perdendo muito do meu brio, diziam, me parecendo muito com um mendigo de rua.
Mas raramente me esquecia da parte do banho. A comida é que realmente não me era interessante, quase nunca.
Moro em São Paulo. Já pensei em mudar de cidade várias vezes, mas sempre falta grana, e iniciativa não é o meu forte. Não possuo casa própria (coisa de gente organizada, bem sucedida), me arrumo em qualquer lugarzinho, tudo me cai bem, sempre consigo me acostumar.
Era sempre despedido dos empregos, quando não o fazia antes por conta própria.
Alegavam falta de motivação, falta de perspectiva de crescimento.
Não consigo agüentar isso. FODA-SE!
Dizia sem arrependimento algum.
Desde cedo aprendi que não bastava que você fizesse seu trabalho. Era preciso mostrar interesse, se possível até paixão por ele.
E Isto provocava enjôos em mim!
Como um homem pode gostar de acordar de madrugada, levantar da cama, tomar um banho frio (podendo em vez disso, estar dando uma boa trepada ), vestir-se, enfrentar um tráfego maldito e ir para a droga de um lugar se matar de trabalhar para encher os bolsos de um “SUPERIOR” e além disso ter que se mostrar grato a isso? Como conseguem aguentar isso tudo?
Realmente possuo algum problema, me falta algum sentimento humano que a sociedade consegue possuir...
MAS EU NÃO!
Conheci algumas mulheres que com o olhar conseguiam penetrar profundamente em mim, algumas de uma inteligência de outro mundo, elas me chamavam tanta atenção e por algum tempo e alguma mágica maneira eu me apaixonava, em certas vezes, por elas.
MAS as de peitos exuberantes, bocas carnudas e pernas fenomenais sempre me ganhavam com mais freqüência.
Mesmo assim, o encantamento não durava muito tempo... peitos, olhares, bundas, inteligência, TANTO FAZ.
Não consigo amar, SÉRIO!
Todas são mulheres: sinônimos de gastos e preocupações.
Cogitar a possibilidade de homossexualismo não faz o meu estilo!
Não posso colocar a culpa do meu jeito em algum acontecimento ou pessoa.
Alguns dizem que se torna triste depois de ter sentido uma grande dor, EU NÃO, sempre achei que A VIDA É QUE É UMA GRANDE DOR. Existiam pessoas que achavam a vida bonita. Eu não era uma delas, simples assim!
Eu, Vladimir Bepe, NUNCA gostei de relógios. Fazia questão de não tê-los! Uma vez recebi um, numa aposta de jogo. Que ridículo! Eu com um relógio. Recebi, mesmo não gostando. O tempo foi passando e percebi que aquele relógio tinha algo de especial, ele se atrasava. Um relógio que se atrasava. Ele, um objeto, que não cumpria sua ÚNICA função, que lindo! Às vezes achava que o encantamento vinha de uma pura e simples IDENTIFICAÇÃO, não cumprir funções impostas pela sociedade (acho isso maravilhoso), mas era só especulação, nunca consegui chegar a uma conclusão mais séria a respeito. O álcool não deixava...
Não fumava cigarros. Morte, gangrena, dor, impotência sexual, já tinha problemas demais na sua vida para procurar outros. Bebia, em compensação.
Não me preocupava com comidas, tendo algo com álcool a meu lado já estava satisfeito. Eu sabia que isso também me causava males, mas é que na garrafa de cerveja, ou seja lá do que for, não vinha aquelas fotos horrendas, que acusavam o meu futuro. Ou mesmo presente, ...
APLACO MINHAS DORES COM LONGOS GOLES e ponto!
Costumo beber devagar, pensando seriamente na idéia de comprar uma arma e resolver tudo aqui, logo, de uma vez. Estou cansado e SEMPRE bêbado.
Quando bebo é como se, por um momento, se criasse um escudo protetor contra aquele mundo lá fora que tanto me fere (ou será o contrário?).
Suportável se torna continuar a viver.
O álcool continua a me salvar quando todo o resto do mundo se tornou indiferente a mim.
Se eu morresse, ninguém ligaria, nem mesmo uma lágrima em minha razão. FODA-SE!
O sol já está saindo...
OBRIGADO POR ME ESCUTAR, ÀS VEZES FAZ ALGUMA DIFERENÇA.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Vênus
Tinha consulta marcada. As coisas não andavam bem ultimamente, e quando digo as coisas, quero dizer minha saúde. Mas nada que um apoio familiar não resolvesse! Ou não...
Sim, voltando... Tinha consulta marcada, 17:30, saí do trabalho mais cedo e fui direto ao hospital; 4 dos pacientes dele já haviam chegado. Eram todos idosos e aquilo me incomodava de uma forma incrível. Eu, 46 anos, na flor da idade, ok, certo certo, não tão na flor da idade assim, mas ainda tenho tanta coisa para viver.
― Mas você ainda vai viver, pai!
Repetia minha filha mais velha inúmeras vezes. Falando nela, ela prometeu me acompanhar na consulta e só deus sabe o quanto aquilo me fortalecia. Ela ainda não havia chegado e só me restava esperar.
Fiquei ali, passando os olhos nuns papéis que falavam sobre o meu problema. Ultimamente não me lembro de estar lendo outra coisa, além disso.
Estava no 5º andar, o hospital era tão bem equipado, enorme. Arisco dizer, o melhor do estado.
Tinha que pegar o resultado duns exames no 1º andar. Karol poderia fazer isso, mas estava demorando e só havia 2 pessoas na minha frente. Resolvi ir sozinho. A falta de equilíbrio me obrigava a andar de elevador sempre, não achava ruim. Quem diria, logo eu. Até que não demorou muito lá, 5 minutos e lá estava eu, com os exames na mão, os tão temidos resultados indicadores duma notícia ou brilhante demais ou aterrorizadora, o que estava me deixando infinitamente ancioso. Abrir ou não abrir? Eu não entenderia muita coisa, é certo. Mas daria para ter noção de alguma coisa do meu atual estado, é certo também. 2 pessoas. Resolvi não abrir.
Peguei o elevador, 5º andar aí vou eu.
Saí.
De repente minha cabeça começou a doer absurdamente forte. O que era aquilo, meu deus? O coração batendo a mil, o corpo sem força, as pernas desfalecendo,...
Me trouxeram água, perguntas sobre o que eu estava sentindo, barulho, muito barulho.
O que estava acontecendo, meu deus?
Minha vista embaçada. Com muita dificuldade, consegui ver que estava no andar errado, o dos apartamentos. Olhei mais à frente, alguma força levava o meu olhar naquela direção. Apartamento Vênus, numa placa bem grande.
Ali minha mãe havia morrido!
Caí...
Sim, voltando... Tinha consulta marcada, 17:30, saí do trabalho mais cedo e fui direto ao hospital; 4 dos pacientes dele já haviam chegado. Eram todos idosos e aquilo me incomodava de uma forma incrível. Eu, 46 anos, na flor da idade, ok, certo certo, não tão na flor da idade assim, mas ainda tenho tanta coisa para viver.
― Mas você ainda vai viver, pai!
Repetia minha filha mais velha inúmeras vezes. Falando nela, ela prometeu me acompanhar na consulta e só deus sabe o quanto aquilo me fortalecia. Ela ainda não havia chegado e só me restava esperar.
Fiquei ali, passando os olhos nuns papéis que falavam sobre o meu problema. Ultimamente não me lembro de estar lendo outra coisa, além disso.
Estava no 5º andar, o hospital era tão bem equipado, enorme. Arisco dizer, o melhor do estado.
Tinha que pegar o resultado duns exames no 1º andar. Karol poderia fazer isso, mas estava demorando e só havia 2 pessoas na minha frente. Resolvi ir sozinho. A falta de equilíbrio me obrigava a andar de elevador sempre, não achava ruim. Quem diria, logo eu. Até que não demorou muito lá, 5 minutos e lá estava eu, com os exames na mão, os tão temidos resultados indicadores duma notícia ou brilhante demais ou aterrorizadora, o que estava me deixando infinitamente ancioso. Abrir ou não abrir? Eu não entenderia muita coisa, é certo. Mas daria para ter noção de alguma coisa do meu atual estado, é certo também. 2 pessoas. Resolvi não abrir.
Peguei o elevador, 5º andar aí vou eu.
Saí.
De repente minha cabeça começou a doer absurdamente forte. O que era aquilo, meu deus? O coração batendo a mil, o corpo sem força, as pernas desfalecendo,...
Me trouxeram água, perguntas sobre o que eu estava sentindo, barulho, muito barulho.
O que estava acontecendo, meu deus?
Minha vista embaçada. Com muita dificuldade, consegui ver que estava no andar errado, o dos apartamentos. Olhei mais à frente, alguma força levava o meu olhar naquela direção. Apartamento Vênus, numa placa bem grande.
Ali minha mãe havia morrido!
Caí...
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Invisíveis
― Comecei a usar drogas pra esquecer dos problemas, fugi de casa, meu pai ficava bêbado e me batia muito. Eu queria sair dessa vida. Meu sonho? Estudar, ter uma casa, uma família, que não existisse drogas, nem fome e nem polícia.
Aquele moleque sobrevivia na correria, como vive a maioria. Sair um dia das ruas é a meta principal, viver decente. Tem um instinto que a liberdade deu, tem a malícia que cada esquina deu. Conhece puta, traficante, ladrão, toda raça. Confia neles, mais que na polícia.
A noite chega e o frio também, sem demora a pedra chega, o consumo aumenta a cada hora, pra aquecer, pra esquecer, viciar. Pra sonhar, viajar, na paranóia, na escuridão, um poço fundo.
Um dia ele viu a malandragem com o bolso cheio, gastando dinheiro, risadas, mulheres. A impressão que dá é que ninguém pode parar.
― Como ganha o dinheiro?
― Vendendo pedra e pó!
Tudo a custa de alguém...
Polícia passou.
Fez seu papel, dinheiro na mão, corrupção, até a próxima.
VOCÊ CONHECE ALGUÉM?
Moleque novo, já viveu muito mais do que muito homem por aí.
Ninguém liga pra moleque, dentro do seu Corolla.
Dizem que quem quer segue o caminho certo, TÁ ERRADO! Ele se espelha em quem está mais perto.
Será que ele terá uma chance?
Quem entra pra voltar... HÁHÁ!
― Quer dinheiro?
― Vá vender. Tem um monte aí...
― Tem dinheiro? Quer usar?
― Tem um monte aí...
Tudo que tem vira fumaça. TEM?
AOS 25 NÃO CONSEGUIU CHEGAR!
Aquele moleque sobrevivia na correria, como vive a maioria. Sair um dia das ruas é a meta principal, viver decente. Tem um instinto que a liberdade deu, tem a malícia que cada esquina deu. Conhece puta, traficante, ladrão, toda raça. Confia neles, mais que na polícia.
A noite chega e o frio também, sem demora a pedra chega, o consumo aumenta a cada hora, pra aquecer, pra esquecer, viciar. Pra sonhar, viajar, na paranóia, na escuridão, um poço fundo.
Um dia ele viu a malandragem com o bolso cheio, gastando dinheiro, risadas, mulheres. A impressão que dá é que ninguém pode parar.
― Como ganha o dinheiro?
― Vendendo pedra e pó!
Tudo a custa de alguém...
Polícia passou.
Fez seu papel, dinheiro na mão, corrupção, até a próxima.
VOCÊ CONHECE ALGUÉM?
Moleque novo, já viveu muito mais do que muito homem por aí.
Ninguém liga pra moleque, dentro do seu Corolla.
Dizem que quem quer segue o caminho certo, TÁ ERRADO! Ele se espelha em quem está mais perto.
Será que ele terá uma chance?
Quem entra pra voltar... HÁHÁ!
― Quer dinheiro?
― Vá vender. Tem um monte aí...
― Tem dinheiro? Quer usar?
― Tem um monte aí...
Tudo que tem vira fumaça. TEM?
AOS 25 NÃO CONSEGUIU CHEGAR!
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A dor é uma coisa estranha.
Um gato que mata um pássaro,
um acidente de automóvel,
um incêndio...
A dor chega,
BANG,
e eis que ela te atinge.
É real.
E aos olhos de qualquer pessoa pareces um estúpido.
Como se te tornasses, de repente, num idiota.
E não há cura para isso,
a menos que encontres alguém
que compreenda realmente o que sentes
e te saiba ajudar...
CHARLES BUKOWSKI
Um gato que mata um pássaro,
um acidente de automóvel,
um incêndio...
A dor chega,
BANG,
e eis que ela te atinge.
É real.
E aos olhos de qualquer pessoa pareces um estúpido.
Como se te tornasses, de repente, num idiota.
E não há cura para isso,
a menos que encontres alguém
que compreenda realmente o que sentes
e te saiba ajudar...
CHARLES BUKOWSKI
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
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