quinta-feira, 24 de junho de 2010
Tentou abrir (lentamente) os olhos. Viu no relógio que já eram 6 da tarde, continuou na cama, mudando apenas a posição para o sol deixar de tomar um pouco sua visão. Seu corpo exalava álcool, o estômago mesmo embrulhado pedia comida e o vício do cigarro batia, mexia, queria ser alimentado, o último pedia urgência a ser resolvido, estendeu a mão, depois de muita luta e uma necessidade maior que ele de não mexer nada do seu corpo além do braço, achou uma carteira de cigarros, vazia! Um TERROR! Seu corpo precisava de cigarros, esse problema teria que ser resolvido... infelizmente! Sentou, muitas partes de seu corpo não o obedeciam, os olhos eram os piores, insistiam em ficar constantemente fechados, mas ele tinha que se levantar, era uma questão vital. Levantou, lavou o rosto, nada mais, tateou a mesinha procurando a chave de seu carro, achou, abriu a porta de seu apartamento, desceu as escadas levado somente pela precisão do cigarro, entrou no carro, ligou, pretendia rodar dois, três móveis lindeiros no máximo, não foi o suficiente. Teria que des truir seus planos, mas o trânsito não lhe parecia muito agradável (ainda iria morar numa cidade melhor, com trânsito melhor e mais lugares vendendo cigarros). Parou o carro no primeiro lugar que viu, desceu, alguns poucos passos e sua longa e viva esperança multiplicada ao vício lhe dizia que os cigarros seriam encontrados naquele estabelecimento, andou, andou (o estômago se retorcia em intensas ondas), andou, entrou, cigarros? cigarros? nada! Saiu, andou, andou... Parou para pensar como havia chegado em casa, por onde andou ontem, o que usou, que dia era hoje, comer melhoraria seu estado? para nenhuma das perguntas tinha resposta. Andou, andou, completamente alheio a esse mundo, quando se deu conta estava com a cara no chão, havia tropeçado em algo, alguém? Um homem sentado no chão, maltrapilho, magro, minúsculo... ELE havia o derrubado? A coisa não andava bem, então! Do chão ainda, fitou os olhos daquele homem coisa, nome? Ele não respondeu, mas seus olhos diziam algo, aqueles olhos bradavam, berravam, chamavam, gritavam! Mas exatamente o que? Se ele falasse facilitaria muito a vida de Eduardo, sua vida já andava muito atribulada e ficar ali sentado tentando decifrar o que aqueles olhos queriam dizer não parecia muito são. Uma palavra era pedir demais? Talvez ele não quisesse mesmo dizer alguma coisa, só queria ficar ali, sentado, parado, com seus grandes olhos gritando e hipnotizando Eduardo. Como? Os cigarros, cadê? Cadê? O que esse pequeno homem significa, o que ele quer dizer? Que os homens são seres sozinhos? Que um pouco de água aqui e ali é o único que precisamos? Que ali abandonado, abandonando, ele conseguia ser mais completo que Eduardo? Os cigarros, cadê? Depois de todas essas especulações, Eduardo chegou a conclu-são que esse homem sem nome tinha lhe ensinado alguma coisa, ele só não sabia o que! Abriu a carteira, tirou uma nota de 50 reais. Uma troca justa? 50 reais por todos aqueles questionamentos, ensinamentos que Eduardo não sabia organizar, desvendar, TALVEZ SIM! Colocou ali a nota, próximo ao homem. Olhou com seus olhos que eram os piores e insistiam em ficar constantemente fechados, olhou para os olhos do homem, mas não houve mudanças, eles continuavam gritando, berrando, chamando...
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